Estandartes de Glória

Até que ponto a culpa é justificável, e sacia aquela ânsia desesperada por perdão?

Em nenhum ponto.

Entretanto, ânsia essa que motiva qualquer ser a alimentar e consumir cada vez mais o ódio que tem por si, não hesita em recordar o motivo das miseráveis tentativas – sempre falhas – de sucumbir ao limbo, à querida mortalha. Juntamente com isso, sempre acompanha a ausência do perdão, que costuma ser ansiada mais que o pouco da auto estima que ainda pode restar. Entre todos os erros e acertos que ocorrem, com ou sem seu consentimento, haverá sempre algo para lembrar, que nunca será inteiramente feliz ou contente com seu estado atual. Será eternamente tragado àquele momento, aquele momento que muito te faz mal.

Na ausência do perdão, o que resta para uma alma silenciosamente melancólica? Somente a dor, o desespero e o remorso serão companheiros fiéis do réu confesso? Perguntas essas que só poderiam ser respondidas por uma pessoa, que hoje não é mais do que memórias amadas e temidas.

E se a esse condenado por perjúrio fosse dado uma última dádiva? Estando esse cogitando cada vez mais a incerteza do posso do que a agonia certeira do pêndulo.

 

Ele merece qualquer tipo de dádiva?

 

Obviamente não.

 

Com o heroísmo decomposto a níveis tão deploráveis quanto sua ética e valores morais, não há motivos ou necessidade de máscaras. Diante a pergunta simples e objetiva: Arrepende-se de algo do seu passado?

 

A resposta é mais simples e ainda mais direta.

 

Sim.

 

“Agora viva na podridão de feitos que não são méritos seus, carregando seus estandartes como penosos fardos cheios de lepra.”

– Limbo

Mármore e Cristal

A singularidade encanta.

Somos fascinados por detalhes, por pequenos pedaços de informações que nos atraem, confinam nossa atenção, nos focam, enforcam. Assim, ignoramos o todo, abstraímos o plural, nos apaixonamos por adornos sem nunca entender a estrutura. É irônico que quanto mais conhecemos de adornos, detalhes, estilos, mais dizemos que não os valorizamos, mais ambicionamos a alma aprisionada no todo. Aquele singelo detalhes que nós faz deixar toda nossa paixão de lado e simplesmente amar.

E o que seria de nós se não amantes das projeções que ambicionamos por detrás de adornos, de ilusões, de amores frustrados, desamparos do coração? A falta que nos faz quando o singular se esvai, quando aquilo que não tem plural simplesmente foge, mesmo quando olhamos atenciosamente. Nos sentimos bobos, nos indagamos onde estava aquela beleza. A condenamos por apresentar uma superfície que na verdade pode sempre refletir seu interior, as vezes tão opaco, as vezes tão luminoso e reconfortante.

Por fim, quando a beleza acaba, quando a dança se encerra. Cessa-se o jogo que tantas vezes joguei, que inúmeras vezes perdi, que me orgulho vigorosamente por vezes ter ganho. Não sobram adornos, enrijecem as pontas, desbotam-se as cores. Sobram apenas as projeções, os anseios, as memórias distorcidas. E quando isso também se for, o que sobrará, além do interior, protegido pela rígida estrutura que me vi criando hipóteses atrás de hipóteses?

Sobrará o mesmo, dentro da singularidade de ambos. Aquele sentimento que aquece, que sobe a espinha e gera um tímido sorriso. Sobrará tudo, além do que prosseguirá, recriando a singularidade múltipla.

Porque não há plural para certas coisas.

Sobreaviso da Morte: Mortalha

O cheiro do sal machuca as minhas narinas, pouco acostumadas ao vai e vem do mar.  Abri com pouco esforço um alçapão que me levaria ao convés, mas tudo que via era a escuridão. O chão de madeira do imponente navio que estava abordo foi completamente encharcado por algo que nunca, nem no pior de meus devaneios, poderia considerar como sendo água. O líquido que tocava minhas mais duas era viscoso e lamacento, não pertencendo aos mares, mas como se saísse direto do inferno para me atormentar.

…  Continua

Amo

E lá estava ele sozinho, rodeado por inúmeros. Alguém, por compaixão ou pena, tire-o de lá. Pois eu não tenho coragem.
Ele nunca conseguirá decidir, se é um corpo cheio da falta de auto estima ou vazio de afeto, mesmo tendo todo o afeto do mundo. Como é ingrato, como é egoísta. Egoísta.
Não permitam que ele os veja, ele só será feliz na tristeza, na ânsia de um olhar caloroso. De mais uma alma caridosa que o rejeitará.
MEDO
Será isso que o está repelindo? Medo, um dos mais primordiais sentimentos. Lindo, puro, pessoal. Um medo só dele, assim como o amor, completamente único.
Enforcado entre o arco e quatro cortas mal tocadas, soando suas notas graves, sem se importar com o sangue que flui de seu pescoço. E a música não para.

Correntes

Abrem-se os olhos de um corpo, em um dia de comoção


Sinto que todos os propósitos da minha vida perderam a importância. Ficaram menores, insignificantes.

A água que escorre do chuveiro parece não tocar meu rosto, tamanha a emoção que me consome.

Vejo-me andando pela casa, fora do meu corpo, como se a emoção análoga a mim tivesse me expulsado do meu corpo.

É óbvio que, como qualquer outra emoção, eu não sou o único.

 

Nem mesmo a luz do sol (que tanto repudio) fez com que eu me movesse. Era um zumbi esperando por uma ordem.

Nem mesmo a chuva me interessou, quando não conseguia pensar em outra coisa, no sentimento bestial que rugia.

Nem mesmo o forte vento surtiu efeito. E como poderia o vento abalar uma árvore sem frutos, que espera, paciente e taciturna, pela primavera.

Faltava apenas o fogo. Como ansiava que o fogo me consumisse e terminasse com minha angústia, meus sonhos mais débeis.

 

Então o fogo veio, e a comoção taciturna e angustiante cessou. Mas a explosão que se seguiu marcaria minha vida.

Toda minha angústia e comoção e a de todas as outras dezenas de milhares de pessoas que compartilhavam do mesmo sentimento.

Morreram, ao som demoníaco que nos instigava.

 

Corpos em chama, gritando, pedindo por mais, que o inferno os carregasse junto.

Corpos sedentos, como chacais, urravam e cantavam ao som do que seria uma deliciosa melodia dantesca.

E junto ao fim todos os saudavam em um coro: AC/DC.

 

A aura ainda me encobria no caminho de volta. Nem mesmo as dores e o cansaço me desanimavam.

Destruído, mas completo.

 

 

Fecham-se os olhos, em um dia de comoção.

Espaços

*olhando para uma pequena caixa em cima do balcão*

– Continue guardada em minha pequena caixa, esperança. Você dentro da caixa, e o destino do lado de fora.

*Repentinamente, uma sombra para ao lado e sussurra algo quase inaudível*

– O que, a caixa tem furos?

*Um pequeno sorriso surge em sua face antes inexpressiva*

– Até mais tarde.

 

 

Incompatibilidade

Meus pés não sentem o chão
Não consigo pensar em outra coisa
Procuro uma parede para recobrar meus sentimentos
Não a encontro em lugar algum

Meus amigos me ajudam a tirar o peso de dentro de mim
Dizem que não será bom, mas será necessário
Ajoelho-me e penso no mal que tens me feito
Te arranco do meu corpo, sem carinho

Sem forças, destruído, fui carregado
Não como um perdedor, mas como um herói sem esperança
Quanto mais me matava, menos sentia necessidade de ti
Te repudiei em meus sonhos

Hoje,

Minha mente percorre os fatos
e vejo tudo o que perdi
Meu corpo urra de dor e exaustão
Minha mente, confusa, não sabe o que fazer

Não quero voltar ao estado que estivera na noite passada
Querendo como nunca te quis
E esperando que você me deixasse na mesma noite
Querendo ajuda para esquecer